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Violência no feed: saiba como zerar o algoritmo e reduzir a repetição de cenas no Instagram

Aplicativo oferece ferramentas que permitem redefinir os interesses registrados pelo sistema.

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Imagem ilustrativa (Foto: Freepik)
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É possível reduzir a repetição de imagens e postagens no Instagram, inclusive conteúdos violentos que insistem em reaparecer no feed após uma ou duas visualizações. Esse efeito ocorre porque o algoritmo da plataforma interpreta qualquer interação, como assistir a um vídeo até o fim ou parar por alguns segundos, como sinal de interesse, passando a entregar conteúdos semelhantes de forma contínua. Para quebrar esse ciclo, o próprio aplicativo oferece ferramentas que permitem redefinir os interesses registrados pelo sistema.

Segundo o especialista em consciência digital Fábio Nudge, graduado em Ciência da Computação e pós-graduado em Psicologia, com foco em Dependência Tecnológica, o primeiro passo é acessar o menu de configurações do Instagram e entrar em “Preferências de conteúdo”, uma área pouco visível para a maioria dos usuários. Dentro desse menu, existe a opção “Redefinir conteúdo sugerido”, que permite zerar os dados utilizados pelo algoritmo e fazer com que ele volte a aprender a partir do comportamento atual do usuário.

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Antes disso, também é possível incluir palavras-chave que se deseja evitar, como “violência”. Ao adicionar esses termos, o algoritmo passa a bloquear conteúdos relacionados, reduzindo a aparição desse tipo de material no feed e nas sugestões. “Essas ferramentas não eliminam totalmente o problema, mas ajudam a reduzir significativamente a repetição e devolvem ao usuário parte do controle sobre o que consome”, explica Fábio.

A discussão ganha ainda mais relevância diante de episódios recentes que tomaram conta das redes sociais. Nos últimos dias, a Paraíba acompanhou o caso da médica e influenciadora digital Rafaella Brilhante, que denunciou o ex-marido, o cantor João Lima, por violência doméstica. A denúncia resultou na prisão preventiva do acusado e na ampla circulação de imagens e relatos do episódio em redes sociais, aplicativos de mensagens, sites e programas de televisão. A repetição desse conteúdo levou a debates sobre os efeitos da exposição constante à violência no cotidiano da população.

Pouco depois, outro episódio de forte comoção ganhou repercussão nacional. Em Santa Catarina, o cão comunitário conhecido como Orelha, de cerca de 10 anos, foi encontrado agonizando após agressões cometidas por adolescentes e precisou ser submetido à eutanásia devido à gravidade das lesões. Mais uma vez, imagens de violência passaram a se repetir ao rolar a tela dos feeds nas redes sociais.

Para Fábio Nudge, episódios distintos como esses evidenciam como a violência tem se tornado um conteúdo recorrente, impulsionado por algoritmos que priorizam materiais capazes de gerar choque, indignação e engajamento. “Mesmo quem não busca esse tipo de conteúdo acaba sendo impactado. A repetição constante não amplia a compreensão dos fatos e pode provocar ansiedade, medo, irritabilidade, sensação de insegurança e, em alguns casos, dessensibilização ou retraumatização”, afirma.

O especialista explica que conteúdos violentos costumam ser amplificados rapidamente porque despertam emoções intensas. “Esse tipo de reação gera engajamento, e o algoritmo interpreta isso como interesse. A partir daí, passa a entregar ainda mais conteúdos semelhantes, criando um ciclo de exposição contínua”, diz. O fenômeno se conecta ao conceito de “rage bait”, termo eleito como Palavra do Ano pela Universidade de Oxford, expressão que, em tradução direta, significa “isca de raiva”, usada para definir conteúdos online criados para provocar indignação e revolta.

Fábio reforça a importância de diferenciar o papel de informar da prática de explorar imagens de violência. “Noticiar um fato de interesse público é necessário. O problema é quando a repetição de cenas violentas se torna automática e descontextualizada. Isso não aprofunda o debate e ainda contribui para o adoecimento emocional coletivo”, pontua.

Entre as estratégias práticas para reduzir a exposição estão evitar assistir repetidamente a vídeos de agressão, não compartilhar imagens violentas mesmo com a intenção de denúncia, utilizar ferramentas de ocultação e denúncia das plataformas e priorizar fontes que contextualizam os fatos sem exploração visual. “Cuidar do que se assiste é parte do cuidado com a saúde mental”, reforça.

Em um ambiente digital marcado pela velocidade e pelo excesso, os casos recentes reforçam um ponto central: não compartilhar conteúdos violentos também é uma forma de posicionamento. Informar continua sendo essencial, mas desenvolver uma relação mais consciente com aquilo que se consome e se propaga tornou-se parte fundamental da proteção da saúde emocional individual e coletiva.

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