Um livro para pensar sobre xenofobia: “Só sei que foi assim”

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O triste e repudiante episódio em que o cantor Ed Motta xinga um barman de ‘paraíba filha da p*’, coincidiu com a leitura que concluí nos últimos dias do jornalista e pesquisador em Comunicação, Octávio Santiago. O livro é “Só sei que foi assim – a trama do preconceito contra o povo do Nordeste” e, confesso, é daqueles livros que a gente termina torcendo para que o autor esteja pensando no volume dois.

O tema é cruel, porém real. Fala da xenofobia, do preconceito sem sentido e repugnante contra um povo. No caso, o povo nordestino do qual faço parte e tanto me orgulho desde que me entendo por gente.

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Eu já me encaminhava para o final da leitura quando veio o caso de Ed Motta, que, vejam, em outra ocasião, conforme investigações, já tinha chamado o barman de ‘retirante’. No vocabulário dele, ‘paraíba’ é adjetivo diminutivo, é xingamento. Vejam que atraso. Ele passa a ser investigado por injúria por preconceito.

O livro de Santiago traz essa reflexão e nos convida a também nos questionarmos sobre os estereótipos que nos são impostos desde cedo e que incorporamos. Muitas vezes, até recebendo como elogios o que, na verdade, não passa de preconceito, xenofobia.

Recentemente, falando com uma pessoa do Sudeste por telefone, fui surpreendida com a declaração: “Nossa, mais que sotaque fofo que você tem!”.

Há uns dois ou três anos, em Brasília, eu e outros paraibanos tivemos que ouvir um: “Nem parece que são da Paraíba”. No elevador, apenas nos olhamos com a certeza de que cada um entendeu o sentido do “nem parece ser da Paraíba”.

Declarações como essas não são elogios, são uma tentativa – talvez inconsciente (para algumas pessoas vou deixar o benefício da dúvida)– de minimizar o nosso povo, a nossa terra e a nos reduzir a meros ‘retirantes’, que passam fome enquanto nos questionam se aqui tem Coca-Cola ou se já chegou internet 5G.

Deixo a obra de Santiago como indicação de livro sobre o tema, com a perspectiva de abrir os olhos para o preconceito revestido que enfrentamos no dia a dia. O autor, que é de Natal, capital do Rio Grande do Norte, estado vizinho ao nosso, aborda como o preconceito contra o povo do Nordeste foi reforçado através da música, da literatura, das telenovelas, e continua, infelizmente, até os dias de hoje.

Valéria Sinésio
Jornalista

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