
Por regra, não tenho o costume de reler livros. Considero que o nosso tempo é tão escasso e há tantos livros que desejamos ler, que as releituras, a princípio e erroneamente, parecem perda de tempo.
Nos últimos meses, tenho me rendido às releituras, com a certeza de que, realmente, o livro que li há meses ou anos, continua o mesmo, mas eu não. A releitura é um mergulho ao passado com a conexão do presente e novas interpretações sobre o texto que está sendo lido.
Eu, que tenho a mania de grifar livros, diante de releituras, logo me vejo destacando outros trechos no mesmo livro. Nada mudou nas páginas. É quando tenho a certeza de que não sou a mesma. A leitora que relê aquele livro se transformou de alguma forma, e isso inclui nossa trajetória de vida com experiencias negativas e positivas e também as leituras que fazemos.
Uma releitura marcada pela emoção
Uma das últimas releituras foi um verdadeiro presente: o livro ‘Éramos seis’, de Maria José Dupré, que conta a história de Dona Lola, seu marido Júlio e seus quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel. Uma leitura que recomendo, inclusive.
O livro fala de saudade, de memórias, de perdas, de vazios. Vazios de lugares físicos, mas principalmente do vazio no coração, ali onde não se alcança com as mãos, mas que pode causar uma dor dilacerante. Dor como a que Dona Lola experimentou ao longo de toda uma vida quando viu o marido partir, os filhos partirem, as esperanças irem embora sem ao menos avisar.
“Éramos seis” é um livro marcado pela sensibilidade, e que continua atual em muitos aspectos. Difícil não se enxergar, nem que seja por um minuto, em alguns dos personagens – ou em vários deles.
Li esse livro inicialmente na pandemia de Covid-19, acho que 2021 ou 2022, e reli na semana passada. Posso afirmar sem medo: quanta coisa mudou em mim nos dois momentos que li ‘Éramos Seis’.
Assim como disse o filósofo Heráclito de Éfeso que “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”, assim acontece quando relemos um livro. Ainda que as palavras permaneçam ali, imutáveis, nós, leitores, não somos mais os mesmos de antes, e as impressões, certamente, serão diferentes daquelas que um dia tivemos.
Releitura, reencontros
A releitura de “Éramos seis” fiz para uma roda de conversa com mulheres leitoras em um sábado ensolarado em João Pessoa. Foi uma experiencia incrível, do início ao fim. Antes de abrirmos as discussões sobre a obra de Maria José Dupré, fomos brindadas com uma história real digna dos mais valiosos romances literários. Com uma narrativa emocionada e firme, uma das participantes (a querida Emília, bisneta de Adalgiza) compartilhou conosco a história de uma grande mulher que faz parte de sua vida, sua família, sua história. Uma história que se passou mais ou menos na mesma época que o romance de Dupré.
Decidida, abriu a bolsa, pegou um porta-retrato que mostrava um jovem casal lá pelos anos 20 e contou a história de Adalgiza Aguiar de Melo, mulher que desafiou o patriarcado, enfrentou os muitos obstáculos, rompeu ciclos e decidiu seguir o coração, casando-se com o homem que amava.
Teve uma vida curta, deixou duas filhas. Não contarei aqui os detalhes que ouvi porque não me cabe e nem me foi autorizado. Só posso dizer que ouvimos cada trecho narrado com emoção e, ao final, aplaudimos essa grande mulher que foi Adalgiza, que abriu portas para outras mulheres. Tudo isso, no Dia Internacional da Mulher. Uma justa homenagem. Adalgiza se tornou o nome do nosso clube de leitura.
Fomos para discutir ‘Éramos seis’, e saímos com o coração transbordando de emoção com a outra história por nós descoberta e por Emília tão bem contada. A vida imita a arte a todo instante, ou seria o contrário?
Valéria Sinésio
Jornalista
Respostas de 2
Quanta honra, querida Valéria.
Eu não encontro palavras certas para agradecer, ao contrário de você que as encontrou, com perfeição, para descrever a magia daquela manhã.
Como sempre uma crônica poética. Ensina muito. 🥰🥰🥰
O que me surpreende nas releituras é notamos a percepção de como éramos e somos agora.
Aprendi que reler é um exercício necessário, até porque se o livro é bom, tudo se explica por si.