Entre cafés e livros: como uma livraria física enfrenta os gigantes digitais

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Livraria do Luiz
Livraria do Luiz

Ao subir as escadas da centenária Galeria Augusto dos Anjos, o clima costuma ser de entusiasmo para os leitores que frequentam a Livraria do Luiz, fundada há 54 anos. Porém, por trás das estantes e dos clássicos literários, há o desafio de manter o negócio competitivo diante das vendas online.

Para atrair a clientela, os donos da livraria, Janaína e Ricardo Pinheiro, apostam na experiência que podem oferecer aos frequentadores, o que inclui café, clubes de leitura e realização de eventos com lançamentos de obras. Atualmente, eles sustentam a empresa com duas unidades e dez funcionários.

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Janaína Pinheiro e Ricardo Pinheiro.

Segundo Janaína, a abertura da cafeteria há cerca de dez anos deu um novo fôlego e conseguiu aumentar o faturamento em 40%. Além de competir com as vendas online, a livraria está localizada na área central de João Pessoa e enfrenta também o desafio relacionado ao esvaziamento e desvalorização do centro da cidade, problema que atinge outros centros urbanos do país.

“A cafeteria ajudou a aumentar o movimento de clientes na livraria, fazendo com que as pessoas permanecessem mais tempo no local”, explica Janaína. Entre um café e outro, um livro acaba chamando a atenção e o cliente efetua a compra.

A ordem acabou se invertendo, e hoje o café se tornou o carro-chefe do empreendimento. “A cafeteria, sem dúvidas, contribuiu para o aumento da receita, não só dos produtos do café como também dos livros. As pessoas vêm fazer um lanche e terminam comprando livros”, destacou.

Café tradicional da Livraria do Luiz

Janaína e Ricardo, há anos, sentem o impacto do que dizem as pesquisas sobre leitura no Brasil. O fechamento de livrarias, inclusive de grandes redes como a Saraiva e Cultura, assusta o casal de livreiros, que vive se reinventando e buscando ideias para garantir que a livraria continue de portas abertas.

Na pandemia da Covid-19, por exemplo, quando estavam desesperançosos diante do fechamento do comércio pela necessidade de distanciamento social, uniram esforços com apoio de amigos para o fortalecimento das vendas pela internet. Desde então, não pararam. Vendem pelas redes sociais, por telefone e por WhatsApp, como forma de aumentar as vendas.

A pesquisa “Panorama do consumo de livros – 2025” mostrou que, dentre os consumidores de livros, 49% deles preferem comprar livros pela internet devido aos preços mais baixos e à comodidade. Mas ainda há quem prefira livraria física, como Benedito Fonsêca, oficial de Justiça e leitor compulsivo, que afirmou que “apesar dos tempos de comodidade da internet e da rapidez, há algo mágico, sensitivo e prazeroso sentir uma livraria física”. Um perfil que ajuda, e muito, as vendas das livrarias físicas.

Livraria do Luiz

Economista diz que busca de alternativas é necessária

Na avaliação da economista Angélica Costa, em um cenário em que o mercado digital cresce de forma acelerada, manter uma livraria física competitiva exige muito mais do que vender livros. “Pede inovação, relacionamento com o público e capacidade de criar experiências que a internet, muitas vezes, não consegue oferecer”, declarou. Ela cita a Livraria do Luiz como um exemplo de negócio que reúne essas características em João Pessoa.

Segundo a economista, ao longo dos anos, a livraria conseguiu permanecer relevante porque compreendeu algo essencial da economia moderna: “o consumidor de hoje não busca apenas um produto, busca conexão, acolhimento e identificação”. Do ponto de vista econômico, conforme a especialista, empresas que conseguem se reinventar de forma contínua aumentam suas chances de sobrevivência no mercado, principalmente em setores impactados pela tecnologia.

Estratégias adotadas são exemplos para outros negócios do centro, aponta economista

Para a economista, ao avaliar especificamente as estratégias adotadas pela Livraria do Luiz, as mudanças demonstram capacidade de adaptação diante de um problema real vivido pelos centros urbanos, que inclui a redução da circulação de pessoas e a migração de consumo para outros polos, além do ambiente digital. Sobreviver no mercado exige, segundo Angélica, criatividade, conexão com o consumidor e reinvenção constante.

“Mesmo enfrentando esse cenário, a livraria aposta em diferenciais importantes. Isso é estratégico porque transforma o espaço em um ambiente de experiência, e até encontro intergeracional, e não apenas de vendas, servindo de modelo para outros pequenos negócios do centro da cidade”, explicou.

Clubes de leitura e lançamentos com autores aumentam rendimento

Dois clubes de leitura se reúnem mensalmente na Livraria do Luiz e são importantes para alavancar as vendas. Durante as reuniões, não faltam pedidos de cafés, sucos e outros produtos oferecidos no local, além da venda de livros. Além dos clubes de leitura, a livraria consegue aumentar o rendimento promovendo o lançamento de obras, com uma média de cinco ao mês.

Clube de leitura na Livraria do Luiz

Enquanto as vendas digitais seguem avançando e a livraria se consolida como um local de encontro para leitores e intelectuais, Janaína e Ricardo apostam na combinação entre literatura, convivência e receitas para manter viva a história iniciada há 54 anos, bem no coração da cidade.

Valéria Sinésio;
Jornalista.

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